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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sifu?


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Obama lá!



Tab (Thomas Boldt), The Calgary Sun, Alberta, Canada

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

As escolhas de McCain

Notas sobre o estado atual da campanha americana


Por Idelber Avelar

Os últimos dias da campanha de John McCain foram de um tremendo vai-e-vem: a chapa partiu para ataques a Obama por suposta associação com alguém que foi terrorista quando ele tinha 8 anos de idade, usou apresentadores que se referiam a Barack Hussein Obama, soltou um comercial sinistro sobre o “perigo” Obama e por aí navegou durante três ou quatro dias. Os comícios começaram a fugir do controle, com seus apoiadores chegando a gritar matem-no à menção do nome de Obama. O Serviço Secreto abriu, inclusive, o inaudito precedente de interrogar membros de um comício presidencial por ameaça de assassinato. Com a reação negativa gerada pelo sectarismo, McCain retrocedeu. De uma correligionária que começava um discurso sobre Obama, o “terrorista árabe”, ele chegou a tomar o microfone, meio sem graça ou talvez a contragosto, para dizer que Obama é um homem de família decente com quem tenho algumas divergências. Foi vaiado durante alguns instantes pelo seu próprio público. Ante a menção de um correligionário de que “tinha medo” de Obama, McCain de novo se afastou do clima de ódio que sua própria campanha havia criado, tendo que dizer que Obama não era alguém de quem se deveria ter medo. A contradição é óbvia: toda a campanha de McCain se sustenta sobre a premissa de que há que se ter medo de Obama, de que há algo “desconhecido e perigoso” nele. Caindo essa premissa, a campanha de McCain fica meio desprovida de ângulo de ataque.

Ao lançar essa barragem de ataques, McCain está repetindo incontáveis campanhas republicanas que deram certo, como por exemplo contra John Kerry, em 2004. O problema é que o contexto hoje é outro. Na pior crise econômica das últimas oito décadas, com o sistema financeiro em colapso e milhões de americanos perdendo suas casas e indo para a fila do desemprego, o discurso do medo já não cola como antes. No caso desta campanha, há um problema extra para McCain. Até muito recentemente, ele era visto por boa parte da base do Partido Republicano – cada vez mais reacionária e religiosa nos últimos anos – como um conservador “independente demais”. McCain precisou conquistar essa base. O problema é que o discurso raivoso necessário para mobilizá-la assusta os independentes, justamente os eleitores que McCain precisa conquistar. A oscilação entre baixaria e civilidade na campanha é a expressão desse impasse. McCain não é esquizofrênico nem burro. Simplesmente está numa encruzilhada matemática e política que gera essa gangorra discursiva. A outra alternativa – voltar a discussão para os temas econômicos, que são os que mais interessam aos americanos – seria suicídio para McCain. Nesse quesito, Obama janta-o com ketchup e mostarda. Os fatos hoje não estão do lado de quem sempre defendeu a desregulamentação e a sapiência infinita do mercado.

Na Gallup nacional diária, a vantagem atual de Obama é de sete pontos. Até mesmo no quesito “líder mais forte” -- no qual os candidatos republicanos sempre levam vantagem – Obama lidera as pesquisas com 54% contra 40% de McCain. Deve ser uma estatística inédita numa corrida presidencial americana. Para piorar, uma das três pessoas que McCain citou como as mais "sábias" do país (e de quem ele dependeria para conselhos) comparou-o a um dos maiores racistas dos tempos modernos. A cereja do bolo é o relatório da comissão -- de maioria republicana -- que investigou a perseguição de Sarah Palin ao seu ex-cunhado, policial no Alaska, o chamado “Troopergate”: o veredito unânime foi de abuso de poder. Trata-se de uma história que a campanha de Obama certamente não vai explorar, não por magnanimidade, mas porque não interessa a Obama atacar Palin agora. Ela já é cachorro morto (aliás, gostaria de convidar a que se manifestassem nesta caixa os leitores que vieram me falar da “jogada de mestre” que teria sido a escolha da Vice de McCain).

Piores que os números da Gallup nacional são os números dos estados decisivos. No Colorado, estado tradicionalmente republicano, Obama abriu dez pontos. No Novo México, que Bush venceu em 2004, a diferença atual em favor de Obama oscila entre oito e onze pontos. Na vermelhíssima Carolina do Norte onde, no começo, até setores do Partido Democrata não acreditavam na possibilidade de vitória, Obama lidera por seis pontos. A Pensilvânia, que a campanha de McCain tinha esperança de trazer para a coluna republicana, já está merecendo abandonar a condição de swing state. Se excetuarmos uma pesquisa de setembro conduzida pela desmoralizada Zogby, não há uma única enquete que tenha dado McCain na frente durante toda a campanha. A vantagem atual de Obama oscila entre doze (pdf) e quinze pontos.

Está decidida a parada? Não. Há um exemplo anterior de um candidato que saiu de desvantagem comparável e venceu: Reagan contra Carter, em 1980. Na quarta-feira, McCain terá a última chance de reagir através de um debate. Ele andou prometendo “dar uma surra" em Obama (whip, literalmente, “chicotear”) no próximo encontro cara-a-cara. Se não o fizer de forma bem convincente, ficará dependendo de um acontecimento fora do ordinário para ter chances de virar o jogo. Afinal de contas, erros graves, na campanha de Obama, não vêm ocorrendo em grande profusão.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Is health care a right,a privilege or a responsability?

Mcain disse que é um dever. Obama disse que deve ser um direito de todos o acesso aos planos de saúde. É o Império discutindo o Estado Social, o SUS que eles não têm:


Barack Obama would create a national health insurance program for individuals who do not have employer-provided health care and who do not qualify for other existing federal programs. Does not mandate individual coverage for all Americans, but requires coverage for all children. Allows individuals below age 25 to be covered through their parents' plans.

Sarah Palin: "I support flexibility in government regulations that allow competition in health care that is needed and is proven to be good for the consumer, which will drive down health care costs and reduce the need for government subsidies. I also support patients in their rightful demands to have access to full medical billing information."

John McCain believes competition will improve the quality of health insurance. Supports health care tax dividends for low-income Americans, medical malpractice reform, improving electronic record-keeping, expanding health savings accounts, and encouraging small businesses to band together to negotiate lower rates with health care providers. McCain campaign Web site states, "Families should be able to purchase health insurance nationwide, across state lines, and their policy should follow them from job to job."

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Vem aí o primeiro debate americano


The first presidential debate is going to be held at the University of Mississippi, which hired me to do an illustration for the event - here it is on their current "Ole Miss" magazine cover. They will be using it for other stuff associated with the debate too, probably the programs or a poster or something. It would be fun if they would blow it up big as a backdrop (somehow I doubt that they'll do that, but thanks, Ole Miss!)
Cagle's blog

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ela caça


David Horsey, Washington, The Seattle Post-IntelligencerVisit David's's site

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Laskou

O Alaska é a única zona de EUA por onde passa o círculo ártico e Palin é a primeira postulante a um cargo presidencial estadunidense que provém daquela região. Ela e seu esposo foram apontados por terem integrado ou manterem vínculos com o Partido pela Independência de Alaska (PIA), a única força separatista dos EUA que chegou a governar um Estado de1990 a 1994.

O Alaska é a única parte de América que não foi colonizada a partir da Europa, mas pela Ásia e a Rússia. Os eslavos se assentaram na região quando os EUA se tornaram independentes.

Em 1867 Moscou vendeu a região a Washington e em 1959 converteu-se, juntamente com Havaí, no último Estado a compor à União.

Seu tamanho (1,7 km²) é maior que a soma de quase a metade dos Estados menores dos EUA, mas possui somente cerca de 700.000 habitantes. O PIA não deseja a independência do Alaska para se inclinar aos nativos ou à esquerda, senão para torná-lo mais libertário.

Seu fundador, Joe Vogler, sugeriu que se lançassem bombas nucleares contra o gelo glacial para evitar que a capital alasquenha (Juneau) não seja tão isolada. Palin enviou uma mensagem à convenção do PIA 2008 sustentando que ela concorda com eles em diminuir o papel do governo e em dar mais força ao Alaska.

Enquanto os ecologistas falam na preservação dos ursos polares e em evitar que os poços e dutos petroleiros tragam danos ao eco-sistema quase virgem do Alaska, Palin, deseja explorá-lo ao máximo e sem muitas restrições às suas grandes riquezas naturais.

* Isaac Bigio é analista internacional em Londres. Seu site é: www.altopilar.com/isaacbigio

terça-feira, 2 de setembro de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

sábado, 14 de junho de 2008

A new deal


R.J. Matson, NY, The New York Observer and Roll Call Visit RJ -- E-Mail RJ -- Visit an archive of the artist's most recent cartoons in the drop menu at the right.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Obamemos

Por Lucas Mendes


Barack Obama vai falar. O prêmio do Partido Democrata é dele. Se nos curvamos diante nobres e do clero, não é vergonha ficar de joelhos para ouvir um homem que mudou a história. Ele ainda não é o presidente, mas se imagine um negro no sul dos Estados Unidos, em 1961, quando Barack Obama nasceu. Nas escolas negras não havia nenhum branco, nem no seu bar, no seu restaurante, no seu hotel. Nem no banheiro público. Negro não tinha amigo branco. Ou vice-versa. Ou se imagine um branco que só via os negros atrás dos balcões, nas fábricas, na cozinha, esfregando o chão.

Em 68, com quatro jornalistas, o dono de um restaurante nos recusou serviçono Alabama, porque entre nos havia um etíope. Quando chamamos a polícia, vieram quatro carros e nos "deram proteção" para fora do Estado antes que fossemos agredidos.

Na terça-feira, só com o verbo, um negro magrelo chamado Barack Obama, saído de um bairro pobre de Chicago, se tornou o candidato do Partido Democrata à Presidência dos Estados Unidos. Ele pode ser o “boss”, o comandante-em-chefe, o líder do maior império do planeta. Imagine a cabeça dos sulistas que acreditavam na superioridade de raça branca e, hoje, vêem um negro perto da Presidência. E muitos não só acreditaram como votaram nele. Vamos ficar de joelhos. Até os que duvidam, como eu, das chances dele ser eleito em novembro, temos que acreditar num mundo melhor graças a Barack Obama.

E, quase tão extraordinário, em segundo lugar, com 1% de diferença nos votos, vem uma mulher. Também merece nossa circunflexão. Viva o Partido Democrata.

Luta
Esta luta começou há 16 meses, as primárias há quatro. Foram 54 eleições incluindo os caucus. E isto foi só o primeiro tempo. Impossível dizer qual dos dois candidatos foi mais generoso nos elogios ao adversário ontem à noite, mas os partidários de Obama queriam mais. O senador, na vitória, foi magnânimo. Hillary Clinton despejou adjetivos, mas quem esperava uma rendição ou mesmo um endosso da senadora ao senador ficou desapontado. Os partidários de Obama contavam com uma entrega maior.

O jogo político americano tem mais do que primeiro e segundo tempos. Afinal, o esporte do país é o baseball, são nove turnos e nem sempre acaba no nono. Então, qual é a próxima jogada?

Ontem à tarde, a senadora, numa entrevista com os deputados de Nova York, disse que estava aberta ao convite à Vice-Presidência. Os críticos logo viram na oferta mais um lance oportunista para gerar controvérsia e tirar o brilho da noite de consagração do senador. Para uma candidata que começou como favorita, caiu em desgraça e quase virou o jogo nas últimas seis semanas, ela esta forte e indispensável. Basta olhar o mapa das vitórias nos estados cruciais e a demografia.
A senadora tem os brancos pobres, as mulheres, os velhos, os latinos, os judeus. Sem ela, as chances do senador ficam menores. A pressão é cada vez maior para que ele ofereça a ela a Vice-Presidência.

Há forte resistência ao nome da senadora, que vem com a bagagem pesada do marido. E onde se enquadra a promessa de "mudança”, que foi o tema da campanha dele. Os Clintons são Washington. Faltam seis meses para eleição, uma eternidade com possibilidades de tragédias, escândalos, armadilhas, mas hoje, se você unir a chapa-sonho e a matemática dos votos do colégio eleitoral, a dupla Obama-Clinton é invencível.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Pra lá de Bagdá, uns três coqueiros


Relaxou. Mas quem vai gozar é Obama. Não entendeu, clique aqui.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O declínio de um clã

Por Idelber Avelar


O declínio de um clã tende a ser mais melancólico que o de uma pessoa, já que ao indivíduo costuma estar dada a possibilidade de ir descendo com um pouco mais de dignidade. Os clãs, especialmente os da política, têm excessivas obrigações, digamos, teatrais. Quanto maiores e mais poderosos são, mais ampla será a discussão interna acerca de como admitir, com classe, que sofreram a derrota emblemática, a que indica, nas palavras do NYT, uma troca da guarda. É a história dos Clinton nos últimos poucos meses e, especialmente, nesta semana.

“Derrota” aqui é relativo, claro. Hillary continua senadora poderosa de NY e Bill uma referência ineludível de presidente de sucesso, apesar de tudo. Eles mantêm considerável poder de barganha e força no partido. Mas a história recente indica a derrota, mais que da candidatura Hillary, da estratégia que os Clinton canonizaram nos 90: a combinação entre a apropriação de bandeiras republicanas -- rigor fiscal, “transição do welfare para o trabalho” etc. --, as táticas violentas de corpo-a-corpo contra os adversários políticos e um componente populista com algumas bandeiras, defendidas com a consciência de que apelos simbólicos bem manipulados são suficientes para manter feliz uma parte cativa do eleitorado do Partido Democrata (leia-se aqui: negros).

Este último componente sustentou aquele escandaloso mito, o de Bill Clinton como o “primeiro presidente negro” dos EUA -- idéia que talvez seja a principal baixa, o mais ilustre cadáver da campanha destas primárias, em que Hillary concorreu contra Barack Obama como se ela fosse a candidata do Partido Republicano. Os Clinton não esperavam cair assim: no ano da “candidata inevitável” (slogan da campanha de Hillary até aproximadamente jan./08), surpreendidos por um garoto de 40 e poucos anos, senador júnior, ao mesmo tempo de origem humilde e de Harvard e, para piorar, mais brilhante retoricamente que Bill, pondo-o no chinelo na batalha discursiva da campanha. Para completar o baile, ainda por cima, o cara é preto. É surpresa demais para quem traz a história que trazem os Clinton.
Por isso há que se dar tempo para combinem entre si a forma mais elegante de ir admitindo a derrota (de qualquer forma, não interessa a Barack Obama ser coroado semi-oficialmente na semana que antecede a primária da Virgínia Ocidental). Esta derrota não seria difícil de assimilar para um grupo menos ambicioso que os Clinton: caramba, não é vergonha para ninguém perder por aproximadamente 52 x 48 no cômputo geral, mantendo um assento no senado por Nova York e a opção de ser líder da maioria ou qualquer outra coisa que quiser (não a Vice-Presidência na chapa Obama, que não é boa idéia para ninguém). Mas, para os Clinton, é uma dinastia que se desmorona.

Quando se diz aqui “os Clinton”, entenda-se não só Bill e Hillary, mas todo um grupo (cuja estratégia política fica em mãos de James Carville, Mark Penn etc.) que é diretamente responsável por uma campanha eleitoral que foi a maior acumulação de sandices das Américas desde que Parreira inventou o 6-0-4. Primeiro havia que se coroar Hillary antes de começar o jogo, pois era a candidata “inevitável”. Esta tática durou até as primárias de Iowa – estado branquelíssimo -- em que Barack levou, John Edwards ficou em segundo e Hillary em terceiro. Daí houve o breve momento pseudo-feminista da campanha, a rápida virada de Hillary em New Hampshire com o choro emocionado num diner e o tema do I found my voice. Quem conhecia sua trajetória com as bandeiras feministas --- assim como com as sociais, as raciais, as democráticas – sabia que a transcendência delas para Hillary sempre havia sido eminentemente eleitoral. Feministas atrás de feministas atrás de feministas já haviam aderido à campanha de Obama. Em todo caso, o momento morreu ali porque nas primárias seguintes Obama passou a vencer também entre as mulheres, na maioria dos estados.

Daí foi morro abaixo: dos ataques pessoais contra Obama inaugurados na Carolina do Sul aos argumentos usados para desqualificar os estados que votaram nele na Super-terça, definiu-se o que seria o perfil da campanha de Hillary. Era a chamada kitchen-sink strategy, que se poderia traduzir livre e futebolisticamente como abaixo do gogó tudo é canela ou se não sangrou nem fraturou, não é falta. A barragem de ataques foi coisa que não se via em décadas no Partido Democrata. Paralelamente, operava a tática da inevitabilidade: as vitórias do adversário haviam que ser desqualificadas. Não valem vitórias em estados que certamente votarão Republicano no outono (Utah, Idaho), não valem vitórias no Sul de concentração negra (Mississippi, Geórgia, Louisiana), não contam os estados que usam assembléias em vez de cédulas (Maine, Alaska, Kansas). Havia que se pensar no candidato que poderia derrotar McCain nos chamados swing states. Daí Obama passa a vencê-la em vários swing states (Virgínia, Colorado, Wisconsin, Missouri) e a estratégia da desqualificação assinada por Mark Penn e Carville em nome dos Clinton passa a precisar de malabarismos ainda mais mirabolantes. A última tentativa foi grudar em Obama o rótulo de inelegível porque ele continuava perdendo entre o eleitorado hillbilly dos Apalaches...

Leia a íntegra dessa excelente análise da campanha americana no blog do autor: o biscoito fino e a massa.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O último escândalo da política americana

Por Idelber Avelar


Na semana que vem, depois que chegarem os resultados das primárias da Pensilvânia, no dia 22, vocês me cobrem uma reflexão sobre o poder eleitoralmente demolidor que pode ter, na política americana, o simples ato de dizer a verdade sobre a classe trabalhadora. O problema da verdade dita por Obama na semana passada – e que simplesmente não para de ser tema de debates, programas, comerciais e ataques, tanto de Hillary como de McCain – é que se tratava de uma verdade que escondia uma verdade maior.

Ao ser perguntado, num evento de campanha, sobre como ele conseguiria os votos da classe trabalhadora da Pensilvânia, Obama fez alusão às frustrações causadas pelas muitas promessas não cumpridas pelos políticos. Para arrematar, ele disse: não surpreende que eles [eleitores de classe trabalhadora] se sintam ressentidos [bitter, "amargos"]; eles se agarram às armas ou à religião ou à antipatia contra as pessoas que não se parecem com elas ou aos sentimentos anti-imigrante ou anti-comércio como forma de explicar suas frustrações.

Soltaram os cães de dentro do inferno. Seguiram-se quatro dias de ataques pesadíssimos a Obama, “o elitista”. Hillary não resistiu e soltou mais um comercial negativo sobre o tema. McCain atacou com o bordão de que Obama está “fora de sintonia” [out of touch] com a América. Mesas-redondas, debates, programas televisivos, manchetes de jornal, tudo girou em torno disso nos últimos dias. A campanha de Hillary na Pensilvânia passou a distribuir adesivos que diziam we are not bitter. Enquanto tece loas ao papa, a campanha de Hillary também coleciona manifestações de ultraje contra o horror das declarações de Obama.

Para quem só lê o escrito, fica difícil entender o que está implícito ali. Qualquer pessoa familiarizada com a política americana, no entanto, extrai o subtexto. A pergunta não o dizia, mas se referia obviamente à questão racial. Traduzida em linguagem direta, a indagação era: como você vai ganhar esses eleitores de classe trabalhadora branca que se recusam a votar em um negro? Claro que Obama poderia simplesmente ter respondido vou fazer o possível para conquistá-los, ou qualquer generalidade do tipo. Mais uma vez, pode ser que tenha que pagar o preço por tocar temas tabus. Mas pode ser que isso acabe funcionando a seu favor. Pessoas que não se parecem com elas significa, em linguagem codificada, negros. Obama disse o óbvio: brancos de classe trabalhadora com freqüência usam negros ou imigrantes como bodes expiatórios para suas frustrações com a perda de empregos. Não o disse assim, claro. Usou a frase citada acima. Tentou um circunlóquio que talvez tenha sido uma emenda pior que o soneto. Talvez.

Na Pensilvânia, o apoiador mor da campanha de Hillary Clinton, o governador Ed Rendall, disse claramente, quando perguntado sobre a elegibilidade dos candidatos: acho que alguns brancos não estão dispostos a votar num candidato afro-americano. A frase não era uma simples constatação. Era um ato de campanha. Era um argumento acerca da elegibilidade. É como se o porta-voz mor da campanha de Clinton na Pensilvânia estivesse dizendo: votem em Hillary, pois ela tem melhores chances de vencer, por ser branca. A isto está reduzido o debate das primárias democratas. Enquanto isso, McCain vai surfando na sua condição de darling da mídia. Resta saber se todo esse imbróglio afetará a performance de Obama na Pensilvânia, o estado natal de Clinton, no qual uma derrota por menos de 10 pontos já será, para ele, um ótimo negócio. A julgar pelas últimas pesquisas, a barragem de ataques ainda não surtiu efeito; a vantagem de Clinton, que chegou a ser de mais de 20 pontos, está bem reduzida. Talvez seja porque, pela primeira vez em muito tempo, ao ser demonizado por um comentário controverso, um candidato democrata escolhe reafirmar o dito, ao invés de jogar o perene joguinho do recuo.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Especialista analisa a corrida eleitoral americana

Especialista em história da democracia e das reformas eleitorais, Keyssar é autor de "O direito de votar: a controversa história da democracia nos Estados Unidos", finalista do Prêmio Pulitzer e eleito o melhor livro dos EUA pela Associação Americana de História.


Folha Online - Hillary Clinton tem chances de vencer Barack Obama?
Alexander Keyssar - Dificilmente. Hillary teria de ganhar nas próximas três principais primárias --Pensilvânia (22/4), Indiana e Carolina do Norte (6/5) e Virgínia Ocidental (13/5)-- por uma margem de pontos muito grande. Com isso, ela teria um argumentos junto aos superdelegados de que é a candidata mais forte. Essa seria a única forma de ela ser a indicada do Partido Democrata. Mesmo assim, talvez poderia não funcionar. Ela poderia vencer por uma diferença de dez pontos percentuais nas primárias que restam, e mesmo assim, não ser suficiente. A estratégia dela é esperar para ver se Obama comete algum erro, se aparece algo novo que o atinja e, como conseqüência, dê a ela a nomeação democrata. Ela está jogando com o foco em pequenos ganhos. Mas os ganhos não são inexpressivos.
Folha Online - Muitos senadores e deputados democratas estão anunciando apoio a Obama. Comenta-se que eles aguardavam uma definição, mas, com receio de haver divisão no partido, estão tomando sua decisão desde já. O senhor vê isso ocorrendo ou é especulação?
Keyssar- A mídia está especulando sobre cada pequeno detalhe. Estes representantes eleitos [senadores e deputados] são todos superdelegados e irão votar. Eu acho que, no final, eles irão votar em Obama, mas irão esperar as outras primárias. Não haverá uma grande corrida para o lado de Obama antes das primárias da Pensilvânia. Se Obama vencer as primárias da Pensilvânia a corrida acaba, ele será o candidato democrata. Mas não há um movimento claro ainda entre os superdelegados. Há, sim, muita gente no Partido Democrata pensando que Hillary não pode mais vencer. E, se ela for a nomeada dos democratas no quadro atual, [Obama com mais delegados] os apoiadores do senador ficariam tão descontentes que nem votariam. Há um sentimento pró-Obama entre os líderes do partido, mas eles aguardam o momento certo para se articularem e anunciarem sua decisão.
Folha Online - Poderia ser depois da votação na Pensilvânia...
Keyssar - Pode ser depois da Pensilvânia ou de alguma outra primária. Eles estão cautelosos, porque é mais conveniente manter o silêncio agora. Muitas dessas pessoas têm relações políticas antigas com os Clinton. Por isso a declaração de voto dos superdelegados não vai ocorrer nas próximas duas semanas.
Folha Online - A maioria dos superdelegados são tradicionalmente ligados aos Clinton [Bill e Hillary]. Se Obama continuar com mais votos populares e delegados regulares, é natural que os superdelegados mudem de lado e apóiem o senador por Illinois?
Keyssar - É uma situação diferente, pois não há uma experiência precedente nesta direção. Os superdelegados nunca fizeram a diferença em eleições presidenciais. Em geral, quando se aproxima a Convenção Democrata, um candidato tem a liderança clara. Quando a corrida começou, Hillary tinha muito mais superdelegados que qualquer outro pré-candidato. Agora o cenário é outro, e eles estão aguardando o momento certo para anunciarem seu voto.
Folha Online - Você escreveu em 2000 "O direito de votar: a controversa história da democracia nos Estados Unidos", um livro de muito prestígio, antes destas eleições...
Keyssar - Sim. Agora estou trabalhando em uma nova edição.
Folha Online - O seu livro trata, entre outras coisas, da diminuição do interesse do eleitorado dos EUA em votar. Para o senhor, o atual quadro é algo novo na democracia americana?
Keyssar - A situação atual é obviamente nova, no sentido de que os democratas irão escolher um negro ou uma mulher. Se Obama for o indicado, irá mobilizar a população negra de uma forma jamais vista. Em alguns pontos, a campanha democrata se parece com a campanha de 1968. Naquelas eleições Eugene McCarthy começou a concorrer com Lyndon Johnson e depois Robert "Bobby" Kennedy entrou na disputa [os três disputavam a indicação do Partido Democrata], e foi assassinado. Os democratas acabaram nomeando Hubert Humphrey [vice-presidente de Lyndon Johnson na Presidência 1963-1969], mais do que Hillary Clinton o candidato da situação no partido. E, no final, Nixon venceu. Então se no final McCain vencer, o processo até a eleição não parecerá tão novo, é um pouco cedo para dizer. Mas o nível de energia dentro do partido democrata é extraordinário e a quantidade de reviravoltas nas primárias é excepcionalmente alta. As mudanças repentinas nas eleições gerais também serão altas. Em parte porque os candidatos são muito diferentes um do outro e porque estamos falando de uma situação nos EUA que é bastante séria. Nós temos uma guerra [Iraque] com a qual não sabemos o que fazer e temos uma economia entrando em colapso.
Folha Online- Já se pode ver claramente entre as pessoas e nas ruas os efeitos práticos da crise econômica?
Keyssar - Em Cambridge e Massachussets, a principal atividade econômica gira em torno da educação. Nem Harvard nem o MIT [Instituto de Tecnologia de Massachussets] estão com problemas, nós somos "à prova de recessão" de uma certa forma. O que ocorre é que as lojas fecham e nada aparece em seu lugar, e em vários bairros se vê casas e condomínios à venda há um ano ou mais sem compradores. Isto é muito diferente da dinâmica de dois anos atrás. Além disso, ao conversar com as pessoas, todas dizem que os negócios estão fracos.
Folha Online - Fale mais sobre seu livro e a situação do sistema democrático dos EUA.
Keyssar - Um argumento do livro é que há muitos altos e baixos na vitalidade da democracia, na proteção das instituições democráticas e do direito de votar [dos EUA]. O que nós estamos vendo agora é algo mais expansivo [em termos de votação]. Mas, nas entrelinhas, por trás dos panos há fenômenos que poucas pessoas estão vendo. Há uma briga legal ocorre agora, e pode ser bastante importante nas eleições em novembro. Está sendo discutido na Suprema Corte se os Estados podem exigir ou não que os eleitores apresentem documentos de identidade com foto para terem seus votos contabilizados. No Brasil isto é normal [é preciso documento com foto para votar], mas aqui é uma grande discussão, e se a Suprema Corte decidir que os Estados podem fazer tal exigência, isso pode representar uma diferença de 5% ou 10% em novembro, especialmente nos votos de pessoas idosas, minorias, alguns jovens e pessoas pobres que não possuem carteiras de motorista [nos EUA não existe carteira de identidade semelhante à do Brasil]. Tal percentual pode fazer a diferença em muitos Estados. Então, por trás das câmeras, há este conflito sobre o direito de votar, que talvez se torne um dilema em outubro ou novembro.
Folha Online - Nas eleições presidenciais em 2000, George W. Bush venceu, apesar de ter menos votos populares que Al Gore, o que gerou uma discussão sobre a legitimidade do sistema democrático americano. A "vitalidade" das eleições em curso mostra de alguma forma que o sistema democrático dos EUA é íntegro e funciona?
Keyssar - Eu acho que o que está mostrando é que há muita vitalidade nas eleições, candidatos interessantes e que as pessoas estão votando em peso. Mas muitos no Partido Democrata estão cansados do sistema de primárias, que agora está levando muito tempo, e é absurdamente caro. O sistema democrático não funciona em parte por causa das formas de financiamento. Em termos de como o sistema vai afetar as eleições gerais, a decisão final é dada pela nossa peculiar estrutura chamada "colégio eleitoral", em que um candidato como Al Gore pode ter mais votos e perder as eleições. E isto ainda é assim. A situação não mostra que o sistema democrático dos EUA funciona. Mostra que as primárias podem mobilizar muitas pessoas para votar se há bons candidatos em uma disputa acirrada.
Folha Online - Analistas e blogueiros dizem que os veículos de comunicação americanos tem "uma queda por Obama", talvez por seu carisma ou por sua popularidade entre os jovens. A mídia tem participação no jogo democrático ou reflete apenas o que a população pensa?
Keyssar - A mídia tem suas regras próprias. Nas eleições de 2000, ela não foi longe o suficiente para enxergar que Bush seria um conservador compulsivo, e noticiou que ele seria um centrista. Em 2004, em tudo que envolveu a Guerra do Iraque, a mídia teve uma posição patriótica e demorou muito tempo para que os jornalistas começassem a questionar seriamente o que a administração Bush estava fazendo no Iraque. Neste sentido a mídia ajudou Bush a ser reeleito em 2004.
Folha Online - Como ocorreu isso? Na época o governo que elevou o grau de alerta de possíveis ataques de armas de destruição em massa...
Keyssar - Sim. A mídia acreditou que havia armas de destruição em massa. Ela não fez a investigação necessária para descobrir ou desmentir quais eram as fontes para estas informações. A mídia basicamente ecoou o que o governo estava dizendo ao invés de ser crítica. Nas atuais eleições, é verdade que ela tem sido generosa com Obama e também com McCain. Mas está bastante dividida ideologicamente. Há uma imprensa liberal democrata como o "The New York Times" e outros jornais que irão claramente apoiar os democratas independentemente do candidato escolhido, e que tem sido mais generosa com Obama do que com Hillary. Por outro lado se começa a ver algumas televisões conservadoras como a Fox News atacando Obama e isso deve continuar.
Folha Online - O que você vê como algo específico e relevante nesta eleição?
Keyssar - Há três coisas que eu destacaria. Primeiro, em termos do Partido Democrata, é notável a extrema paixão e antagonismo entre os campos da Hillary e do Obama, o que é motivado inteiramente pela personalidade dos candidatos. Em assuntos substanciais, no entanto, suas posições são virtualmente idênticas. Em 99% dos casos suas visões se sobrepõem. Em segundo lugar, destaca-se a presença de Obama, que criou uma possibilidade de se discutir questões raciais de uma forma inédita desde 1968 ou 1964, com Lyndon Johnson [então presidente]. Não se trata apenas de seu famoso discurso sobre a questão racial, há um diálogo acontecendo, uma discussão pública sobre raça diferente e nova. Em 1968, Bobby [Robert] Kennedy, especialmente após o assassinato de Martin Luther King, era visto como um candidato que tinha muito apelo emocional ente os afro-americanos, porque falava sobre raça. A questão racial é incrivelmente importante nas eleições americanas, mas não se fala sobre o assunto.
Folha Online - Mas a discussão está sendo produtiva?
Keyssar - Este é o terceiro ponto. Está sendo em alguns locais. Mas a outra grande questão, olhando para frente nesta eleição, e assumindo que Obama será o candidato, é que nós não sabemos ainda como isso vai se configurar em todo o país, nas partes que não estão recebendo atenção agora, no voto dos brancos. Se ele for o indicado, teremos uma eleição sem que um dos assuntos chave nas entrelinhas, que será a questão racial, possa ser mensurado. É algo com o que não teremos uma pesquisa confiável a respeito. Porque quando se fizerem as pesquisas, não se poderá perguntar ou receber respostas honestas à pergunta: "Você vai votar contra o Obama porque ele é negro?" Haverá este ponto de interrogação até o dia da eleição em novembro.
Folha Online - Quem o senhor acha que vai vencer as eleições?
Keyssar - Eu acredito que Obama será o candidato democrata. As verbas irão fazer a diferença, e, neste momento, eu daria uma pequena vantagem ao McCain na corrida.


quarta-feira, 2 de abril de 2008

Obama na Piauí

Existem três coisas que os políticos democratas tendem a fazer toda vez que entram em contato direto com os eleitores que representam: demonstrar um conhecimento impressionante de cada pormenor dos seus problemas, especialmente os que envolvem dinheiro; despertar a indignação, apontando que esses problemas são provocados pelos grupos poderosos que só pensam em enriquecer à custa das pessoas comuns; e apresentar propostas políticas formuladas com o maior cuidado, pois, caso fossem aprovadas, poderiam solucionar esses problemas e pôr os grupos poderosos no seu devido lugar. Obama raramente faz qualquer dessas três coisas. Sua tendência é demonstrar um conhecimento apenas modesto dos assuntos, parecendo menos informado do que na verdade é. Raramente faz acusações, preferindo falar sobre os problemas na voz passiva, como coisas que estão erradas conosco, e não coisas erradas que fizeram conosco. E as soluções que propõe geralmente parecem modestas e locais, não de alcance profundo e nem sistêmicas. Obama já presidiu a várias conferências sobre saúde. Nelas, sempre se mostra calmo e relaxado, como que decidido a poupar energia. Caminha devagar de um lado para o outro, dá meia-volta, balança a cabeça. Faz sempre seus comentários num tom neutro e desapaixonado. Não manifesta piedade para com a doença, desprezo pela burocracia e nem indignação com a injustiça. Diz que o sistema está avariado e precisa de conserto, mas não procura transmitir nenhuma urgência especial. Esse seu comportamento é muitas vezes definido como professoral, e o próprio Obama costuma comparar essas conferências às aulas de direito constitucional que dava na Universidade de Chicago. Mas “professoral” implica algo cerebral ou didático, o que não é o caso. A despeito de todas as críticas que já recebeu, Obama permanece fiel ao que parece ser um instinto que lhe diz que o lugar de estudos é em sites da internet, e não nos seus discursos. É surpreendente, tendo em vista os resultados eleitorais recentes, que não lhe dêem mais crédito pela astúcia dessa postura. (...)


Leia a matéria completa no site da Piauí.

Na lona?

Por Bruno Garcez


Ela não tem mais chances matematicamente, conta com menos superdelegados, com menos votos populares e sua permanência na disputa democrata tem contribuído apenas para enfraquecer o provável candidato democrata. É esse o argumento dos que querem que a senadora Hillary Clinton abandone a disputa para decidir quem será o próximo candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos e apóie Barack Obama. Alguns líderes ilustres dos democratas já o dizem abertamente, caso do senador Patrick Leahy, de Vermont, que afirma que a permanência de Hillary na corrida vem beneficiando mais ao republicano John McCain do que qualquer ação ou slogan lançado pelo próprio McCain. Alguns, como o presidente do partido, Howard Dean, e a líder da Câmara, Nancy Pelosi, clamam por um desenlance rápido da disputa, argumentando que a corrida não pode continuar até a convenção democrata, em agosto.
Como um desfecho só se dará com um dos candidatos abrindo mão da candidatura, e como Obama lidera em todos os quesitos, a mensagem dos dois líderes só pode ser uma indireta a você sabe quem. Em meio ao terreno minado enfrentado pela senadora, um dos seus correligionários, o deputado Emanuel Cleaver, do Mississippi, se arrisca a fazer uma previsão: a de que a Presidência dos Estados Unidos ficará com... Barack Obama! O jornal Wall Street Journal relatou recentemente que um grupo de deputados que apóiam Hillary tanto na Carolina do Norte como em Indiana estariam dispostos a anunciar seu apoio a Obama antes da realização das primárias de seus Estados. Mas, se a senadora parece não ter mais opções e se até mesmo destacados membros de seu partido e correligionários parecem querer que ela faça um retorno antecipado ao Senado americano, o que ainda mantém Hillary na disputa? Uma das hipóteses, que me parece um tanto exagerada, é a de que ela queira justamente provocar a derrota de Obama para McCain e assim retornar em 2012 como a candidata democrata. Uma hipótese que parece ingênua, visto que Hillary provavelmente sabe que muita coisa muda em quatro anos, que o diga a ascensão de Obama. Outra possibilidade, e essa não merece ser desconsiderada, é a de que ela poderá vencer todas as principais disputas adiante, a começar pela Pensilvânia, no próximo dia 22. E, mesmo não alcançando Obama no voto popular, poderia fazer valer sua tese, a de que a dinâmica está a seu favor e de que ela é mais elegível do que o rival. Hillary poderá até mesmo vir a superar Obama no voto popular, caso o Partido Democrata opte por realizar novas primárias no Michigan e na Flórida, onde ela contaria com a preferência dos eleitores. Por essas e por outras, mesmo com as opções se esgotando, ainda é cedo para descartar Hillary. Hoje, ela chegou até a se comparar ao célebre pugilista das telas Rocky Balboa, que acabava vencendo suas disputas mesmo depois de tomar muitos socos e de ir à lona várias vezes. "O senador Obama diz que está cansado da campanha. E seus correligionários dizem querer que ela termine. Você já imaginou se Rocky chegasse no alto daquelas escadarias do museu de arte e dissesse: 'Bem, acho que já fui longe o bastante'?", indagou Hillary. E acrescentou: "Não é assim que funciona, em se tratando de terminar a luta, Rocky e eu temos muito em comum. Eu nunca desisto". Mas, ao contrário do que acontecia com o personagem de cinema, na luta para ganhar a candidatura, Hillary poderá acabar perdendo por nocaute técnico.

sexta-feira, 28 de março de 2008

True lies


Chris Britt, Springfield, IL -- The State Journal-RegisterVisit The Journal Register -- E-mail Chris Visit an archive of the artist's most recent cartoons in the drop menu at the right. Click on the cartoon to e-mail it to a friend.
Kevin Siers, North Carolina, The Charlotte ObserverVisit Kevin at the Observer. E-mail Kevin Visit an archive of the artist's most recent cartoons in the drop menu at the right. Click on the cartoon to e-mail it to a friend.
Não entendeu, clique aqui.

Hillary queimada

WASHINGTON - Uma pesquisa divulgada ontem pelo The Wall Street Journal e pela rede de TV NBC mostrou que a rejeição ao nome da senadora Hillary Clinton atingiu um novo recorde. Os novos números mostram que apenas 37% dos americanos têm uma imagem positiva da ex-primeira-dama, bem menos do que os 45% que aprovavam a senadora duas semanas atrás. A piora na imagem de Hillary, segundo analistas, está ligada à campanha negativa que ela tem feito contra o senador Barack Obama, seu maior rival na corrida democrata para a Casa Branca. A notícia não poderia ter chegado em pior hora para a senadora, que tenta convencer os superdelegados do partido de que ela é a candidata mais viável para vencer o republicano John McCain, nas eleições de novembro. A mesma pesquisa mostrou que as declarações antipatrióticas de Jeremiah Wright, pastor de Obama, que descreveu os EUA como um país racista, não afetaram a visão que os americanos têm do candidato. Seu índice de aprovação manteve-se inalterado: 49%. Apenas 32% dos entrevistados deram ao senador uma avaliação negativa, enquanto 48% avaliaram Hillary negativamente. Embora ainda tenha a simpatia da maior parte dos eleitores brancos, a senadora perdeu terreno também entre eles. Há duas semanas, ela liderava com 51% da preferência entre os brancos, enquanto Obama tinha 39%. Agora, a diferença diminuiu: 49% a 41%. De acordo com a sondagem, pela primeira vez as mulheres tiveram uma impressão negativa maior de Hillary (44%) do que positiva (42%). (...) Daqui para frente, tanto Obama quanto Hillary concentrarão esforços na crise econômica. Ambos os candidatos querem conquistar o voto do operariado da Pensilvânia, considerado fundamental para uma vitória no estado. As prévias na Pensilvânia ocorrem no dia 22 de abril. Para muitos analistas, uma eventual derrota de Hillary seria o fim de sua candidatura. (AP)

sábado, 22 de março de 2008

Imprevisto racial

Por João Cláudio Garcia

Da equipe do Correio

Primeiro pré-candidato negro à presidência dos Estados Unidos com chances de sair vitorioso, o senador Barack Obama sempre evitou conversar ou discursar sobre temas raciais. Foi obrigado a fazê-lo depois que sermões violentos do pastor Jeremiah Wright, de Chicago, uma espécie de mentor espiritual de Obama, caíram na internet. Na terça-feira, o senador democrata comentou as declarações de Wright, que denunciou os EUA como um país racista e fonte do ódio causador dos atentados de 11 de setembro de 2001. Obama rejeitou as opiniões do reverendo, mas admitiu que não poderia ignorar a importância do líder religioso em sua vida. Fez um dos pronunciamentos mais interessantes da política norte-americana nos últimos anos, e espera que tenha sido suficiente para reerguer sua campanha. Uma pesquisa do instituto Gallup, divulgada na quinta-feira, mostra que a ex-primeira-dama Hillary Clinton abriu vantagem sobre Obama depois do escândalo do reverendo Wright. Ela tem 49% das intenções de voto entre os eleitores democratas, contra 42% do senador por Illinois. O temor de que o pré-candidato tenha as mesmas idéias de seu pastor abalou o eleitorado. Em seu discurso de resposta, Obama não se limitou a condenar as frases ditas por Wright, mas lançou uma reflexão profunda sobre os choques raciais nos EUA. Assessores diretos dele admitiram que, entre a equipe de campanha, há muitas dúvidas sobre o impacto do pronunciamento. A preocupação é maior porque o tema não deve sair das manchetes até 4 de abril, quando completam-se 40 anos do assassinato do líder negro Martin Luther King. Ao menos num primeiro momento, as opiniões de Obama — filho de pai queniano e mãe nascida no Kansas — foram bem recebidas. “Não posso renegá-lo (Wright) porque não posso renegar a comunidade negra. Não posso renegá-lo pelo mesmo motivo pelo qual não posso renegar minha avó branca, uma mulher que ajudou a me criar, uma mulher que se sacrificou por mim inúmeras vezes, (...), mas que, em certa ocasião, me confessou ter medo dos homens negros que cruzam seu caminho nas ruas, e que em mais de uma ocasião pronunciou estereótipos raciais ou étnicos que me fizeram estremecer”, afirmou o pré-candidato em seu discurso na Pensilvânia. Suas palavras foram ouvidas por mais de 1,6 milhão de pessoas no YouTube em apenas dois dias, um recorde no site de vídeos (leia a matéria nesta página). “Ele não só enfrentou o assunto, distanciando-se das afirmações do reverendo, mas buscou mudar o foco sobre Wright para uma discussão relativa à raça e seu impacto sobre todos na América”, afirmou Kevin Feeley, presidente do grupo Bellevue Communications, da Filadélfia, ao jornal Los Angeles Times. Outros, no entanto, ainda levantam dúvidas sobre a proximidade de idéias entre Obama e o pastor. “Essa é uma questão de caráter”, disse Newt Gingrich, ex-presidente da Câmara dos Deputados, à rede de TV Fox News. Para ele, o senador deveria ter confrontado as declarações do líder religioso antes, pois passou a impressão de que “não se importava com elas contanto que não se tornassem públicas”. Em alguns dos vídeos que circulam no YouTube, Wright acusa os EUA de apoiarem “o terrorismo de Estado contra os palestinos e os negros sul-africanos” e, então, “ficarem indignados porque a coisa que fizemos está se voltando contra nós” — numa referência ao 11 de setembro. Em março de 2007, um discurso do pastor durante a cerimônia de lançamento da candidatura de Obama foi cancelado na última hora. A campanha do senador admitiu que a medida foi tomada para evitar controvérsias. Na terça-feira, o pré-candidato explicou sua ligação com o reverendo: “Se eu sabia que ele é ocasionalmente um crítico ferrenho da política doméstica e internacional? Se eu discordo totalmente com muitas de suas posturas políticas? Absolutamente”. Obama freqüenta a Igreja Unida da Trindade de Cristo, metodista. A igreja atrai muitos fiéis num subúrbio de Chicago que tem 95% das população negra. Uma pesquisa divulgada pela Fox (emissora tradicionalmente republicana) mostra, no entanto, que 57% dos norte-americanos não acreditam que o senador compartilha das opiniões de Wright, contra 24%. Na tentativa de superar o terremoto em sua campanha, Obama posou ontem ao lado do governador do Novo México, Bill Richardson. Único governador de origem latina no país, Richardson era candidato à Casa Branca, mas abandonou a corrida em janeiro, com votação pequena, logo depois do caucus de Iowa. Ele descreveu o senador por Illinois como “um líder raro, que pode unir a nação e recuperar a liderança da América no mundo”. O apoio do governador é um golpe contra Hillary, já que ele é amigo do casal Clinton e foi embaixador na ONU durante o governo de Bill.

Correio Braziliense, 22 de março de 2008.